quinta-feira, 14 de julho de 2011

Entrevista com Teófanes Silveira – Palhaço Biribinha





Nelson Silveira, primeiro palhaço Biriba, pai de Teófanes, não era de circo. No final do curso médio, em Salvador, o diretor do curso de artes cênicas da escola que ele  freqüentava deu a ele a função de declamar a poesia Virtude ou Castigo. O modo como a recitou, a entonação, as expressões faciais impressionaram tanto que ele foi convidado a freqüentar, então, o curso de teatro. Tornou-se, assim, um ator teatral. Paralelamente, ingressou na Faculdade de Direito. Só que quando cursava o terceiro ano foi contratado pelo circo Pavilhão Teatro Guarani para ser diretor teatral. Após algum tempo, além de exercer o papel de diretor, foi ator e aprendeu acrobacias   trabalhando, então, tanto na primeira, quanto na segunda parte do espetáculo. Para Teófanes, foi a partir daquela poesia que principiou toda a história circense da família Silveira. Seu pai foi de circo e circo-teatro e faleceu com 65 anos de idade, em 1977.

Nelson se casou três vezes, sendo que sua terceira esposa, Expedita, foi a mãe de Teófanes. Ela também não era de circo, uma semi-analfabeta. Como o teatro no circo era uma escola, ele ensinava a ler de forma correta e também a falar certo, pois o texto que chegava nas mãos dos artistas era todo gramaticalmente corrigido, sua mãe, após um prazo não muito longo, tendo o marido como mestre e diretor, aprimorou sua aprendizagem a partir das peças teatrais e foi se constituindo em uma das melhores atrizes do grupo, tanto nos dramas como nas comédias. Seu nome artístico ficou Dita Silveira.

Apesar de ser uma excelente atriz cômica, não exerceu o papel de palhaça, pois, segundo ele, antigamente havia um “cuidado” com isso. Dizia-se que mulher não nasceu para ser palhaça. E muitos palhaços dizem isso até hoje. “Eu acho massa, eu acho lindo, eu acho belíssimo e maravilhoso. Temos que dar palmas a elas. E louvo a descoberta que elas fizeram em mostrar que a diferença entre os seres humanos homens e mulheres é só o sexo, e que os sentimentos são iguais. Então, elas colocaram para fora esse dom e talento que foi dado por Deus, demonstrando também a sua capacidade em fazer rir. De serem engraçadas e de serem palhaças”.

Nelson e Dita tiveram 06 filhos e todos se tornaram artistas de circo e de circo-teatro. Seu pai exercia os papéis de diretor, ator e acrobata, mas foram as grandes atuações nos papéis cômicos que o fizeram ator cômico de palco e abriram caminho para que pisasse também o picadeiro, como palhaço, com o nome de Biriba. Foi no palco do circo-teatro que houve a necessidade de pegar aquele ator cômico e descobrir o palhaço, jogando-o no picadeiro – ele teve, então, 35 anos para consolidá-lo e desenvolver a linhagem dos palhaços que está hoje na quarta geração.

Tornou-se o palhaço somente de entradas e o principal da companhia. Isso, para a região do nordeste, representava e representa até hoje uma importante responsabilidade, pois o público escolhe o circo de acordo com seu palhaço. Houve um tempo também em que ele e a esposa fizeram uma dupla caipira, no Circo Teatro Liendro, de nome Zé e Dita.
Teófanes, filho mais velho dos seis, iniciou sua aprendizagem e estréia no circo-teatro aos sete anos de idade, representando o papel principal na peça Marcelino pão e vinho, tendo seu pai como mestre. Estava em cartaz no cinema em Angra dos Reis, “meu pai adaptou e quando estreou no circo o cinema fechou e os circos não paravam mais de trabalhar. E circo-teatro, naquela época, não tinha recurso técnico nenhum, mas nós tínhamos a criatividade de provocar no expectador a reação do inesperado”.

Nelson ensinava acrobacias também, mas principalmente a representação do teatro. Em vários momentos de sua atuação em uma peça de Gilda de Abreu, Teófanes falava algumas palavras erradas, o que acabou provocando risadas das platéias. O pai o chamou e perguntou quem havia autorizado a fazer daquele jeito. Ele disse que ninguém. Nelson falou: “Aguarde então até amanhã”. No dia seguinte, colocou o filho para representar a mesma peça, mas antes pintou o rosto do filho de palhaço. O eletricista da companhia sugeriu que se o pai era o Palhaço Biriba, então que colocasse o nome do filho de Biribinha.

Quando Nelson faleceu, Teófanes herdou o nome de palhaço do pai, tornando-se Biribinha até hoje. Em 2008 irá fazer 50 anos de palhaço. Faz uma declaração de amor ao palhaço, que lhe ensinou a ser feliz e as pessoas a serem também felizes.

Muitos foram seus mestres, importantes para os diversos processos de consolidação de seu palhaço. Para além de seu pai e sua mãe que faziam com ele duplas cômicas nas peças, quando tinha 8 anos, um ano depois de estrear, disse “ter tido o privilégio de conhecer Georges Savalas Gomes, o palhaço Carequinha”, que se tornou uma das referências mais importantes de profissional, principalmente para montagens de espetáculos voltados exclusivamente para crianças. Até que ele não tivesse definido sua própria maquiagem, baseou a sua na de Carequinha – boca larga, com a diferença apenas de que a sua era para baixo e a dele para cima. Sente que até hoje conversa com ele. Outro importante também foi Chaplin que revelou dentro dele a possibilidade, ou mesmo a potência de dialogar, o palhaço que falava com aquele que não falava. Começou a descobrir que a sua composição cênica precisava mudar de um formato colorido para um pobre, para que “pudesse revelar a riqueza através do ato, através da ação”. Foi aí que para ele começou a surgir o impacto da composição cênica com a interpretação.

A família viveu no circo por alguns anos após o falecimento do pai. Quando o circo fechou, Biribinha ficou na cidade fazendo palhaço em festas de aniversário e em outros eventos. Tudo isso com muita dificuldade e sem prazer. Sonhou que tirava a lona e ficava apenas o público e o picadeiro. A partir desse sonho iniciou um outro momento de sua produção enquanto palhaço que é: o de trabalhar na rua. A imagem que lhe ficou: “na rua apenas não há cobertura”. Reaprendeu algumas formas de se relacionar com o público, que na rua fica diretamente no olho a olho. Reaprendeu a se posicionar cenicamente. A rua é mais um estágio de escola em sua vida.
Hoje considera que, depois de dois anos, o espetáculo Reencontro de palhaços está redondo. E faz dois anos também que deixou a lona para a rua e para o circuito de festivais de teatro.

Ao ser perguntado sobre sua iniciação em festivais e eventos como o Anjos do Picadeiro, fala que de início teve muita resistência em participar, especialmente nos festivais que tinham mostras competitivas. Gostaria de mostrar seu trabalho, “não que tivesse medo, mas não queria competir, só participar.” Teve a proposta de um amigo – Eugenio Talma, da Bahia, para se inscrever no Festival de Londrina. Aceitou se inscrever, como teatro de rua, e para sua surpresa foi aceito. As relações, aprendizagens e transformações que se iniciaram a partir de suas participações nesses eventos são constituídas de uma riqueza da diversidade. “Eu nunca pensei na minha vida, que depois de 48 anos de profissão, eu ainda precisava aprender tanta coisa de palhaço, de ator, de comunicador do circo, como o teatro de rua vem me ensinando. E eu sei que ainda tem muita coisa pela frente”.

Participou dos Anjos dos Picadeiros, pela primeira vez, no ano de 2006. “Ser selecionado para o Anjos, vou te falar, porque Anjo já tá dizendo 'é divino, é maravilhoso'. Saber que o picadeiro é uma representação celestial, onde os anjos estão ali com a sua oração engraçada e lúdica, o ser Anônimo, que não tem nada de anônimo, tem tudo de verdadeiro... o que importa é eu estar com vocês, fazer parte deste coro nesta grande arena onde estão outros colegas também. E o Anjos começa a mostrar para gente como o palhaço deve ser, porque começa a mostrar uma diversidade. De um segmento, mas com formas de ser e fazer completamente diferentes.”

Em meio a sua entrevista, Biriba reforça que tudo isso está sendo ensinado para seus filhos e netos.

Erminia Silva

Entrevista com a historiadora Ermínia Silva

Esteve presente no Anjos do Picadeiro a historiadora Ermínia Silva, filha de Barry Charles Silva e Edwirges P. Silva, quarta geração circense no Brasil. 

Em entrevista ao Jornal de Teatro, Ermínia analisa o papel do palhaço dentro da classe artística, além de explicar a situação atual do circo no Brasil e no mundo. Sua profissão possibilitou aprofundar pesquisas sob histórias do circo, no mestrado com a dissertação “O Circo: sua arte e seus saberes”, em 1996, e, sete anos depois, com a tese de doutorado “Circo-teatro: Benjamim de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil”.

Existe palhaço de circo e palhaço de teatro?

Ermínia Silva – Existe. O palhaço de circo tem que ter, no conjunto de saberes dele, técnicas para trabalhar na lona, pois ele não pode desenvolver a mesma técnica do teatro italiano. A lona é um espaço vazado: de som, de iluminação... O público vai com uma proposta de comportamento diferenciado.

Quando o palhaço está em um teatro tipo italiano, tem que ter o mesmo conjunto, mas tem que saber trabalhar naquele lugar e para aquele público.

Na rua é outra pegada. O palhaço de rua tem que te pegar agora, senão você já foi. No teatro ele pode construir um contexto aos poucos. No circo, a pegada já é outra, não é tão rápida como na rua, porque o público está sentado para assistir, mas não é tão densa como no teatro.
  
Existe uma polêmica em relação à nomenclatura desses artistas. Afinal, o certo é palhaço ou clown?

ES – Na realidade há 30, 40 anos, ocorreu uma produção de circo para fora da lona. Foi quando começou a ter as escolas de circo e também produção autônoma de atores e artistas que decidiram se dedicar à arte circense.

Muitos deles começaram a freqüentar escolas de circo na Europa e as escolas do Brasil não eram consolidadas ainda. Lá, os artistas que se formavam começaram a dar cursos de palhaços. Como se trata de um país onde a língua inglesa predomina, é usada a palavra clown ao invés de palhaço. Os pupilos desses palhaços acabavam falando que não eram palhaços de lona e, sim, de teatro.

JT – Mas eles se julgam superiores?

ES – Havia, na universidade, uma orientação de que eles seriam o Novo Circo, como se nós fossemos o antigo e eles não tivessem nada a ver com o circo de lona. Como se fosse uma produção de chocadeira, sem herança, sem história...

Porém, ao mesmo tempo, eles acabam se vinculando a uma história européia novamente, por causa da relação que mantinham com esses formadores na Europa, que têm uma herança muito grande do circo. Então, esses “pupilos” ficam se referendando mais aos palhaços europeus, que são chamados de clown (porque é língua inglesa) para se diferenciar dos nossos palhaços. Eles dizem: “eles são palhaços de lona e nós somos clown, de teatro”. Hoje em dia nós temos um debate muito tenso e intenso sobre isso.

JT – Você acha que existe, atualmente, um reconhecimento maior do palhaço na classe artística?

ES – Acredito que dentro de um grupo de pessoas ele começa a ter uma faixa de penetrabilidade diferente de outros. A figura do palhaço sempre foi fundamental. Nos circos do Norte e do Nordeste do Brasil, por exemplo, se o palhaço não for bom não se estabelece. Ninguém vai ao circo para ver acrobacia. O público vai ver o palhaço. Por outro lado, existe toda uma formação contemporânea nisso, desses montes de grupos para fora da lona e da questão das escolas e dos projetos sociais, o que resultou em uma diminuição significativa da lona no mundo. Não tem terrenos, os terrenos são caros...